Nasci em Marília, interior de São Paulo, no dia 25 de novembro de 1952. Com poucos meses, vim pra capital. Não vim engatinhando, meus pais que me trouxeram. O jeito foi vir junto com eles.

Até os seis anos, fui mais um garoto de apartamento de São Paulo. Mas não me sentia um passarinho na gaiola. O apartamento ficava no térreo e bastava pular a janela pra chegar ao jardim do prédio. Esse jardim foi por um bom tempo o meu País das Maravilhas, minha Ilha do Tesouro, minha Tatipirun, minha Terra do Nunca. Tempo de muitas descobertas. O mundo podia ser cheio de surpresas e gostei de saber disso.

Meus pais jamais deixaram faltar livros em casa. Isso contribuiu também pra que eu não me sentisse um garoto-passarinho-na-gaiola. Ninguém está de fato confinado quando tem livros à mão. Eu ainda não sabia ler, mas minha mãe, meu pai, meu irmão liam pra mim. Quando eles não estavam por perto, eu via as figuras, punha a imaginação pra funcionar e era bom do mesmo jeito.

Outra coisa que eu-garoto-de-apartamento fazia era ver TV. Foi assim que descobri Monteiro Lobato muito antes de aprender a ler. Assistindo ao Sítio do Pica-pau Amarelo pioneiro, o da Tatiana Belinky e Júlio Gouveia. Nunca mais fui o mesmo depois de Emília. Ela entrou na minha vida de tal modo que até hoje não sei onde eu começo e onde ela acaba.

Minha família era um pouco cigana e lá um dia resolveu voltar pra Marília. Foi uma volta triunfal pra mim porque dessa vez fui morar numa fazenda rodeado de bichos por todos os lados. Eu era maluco por animais (ainda sou!) e cheguei a ter um coelho no apartamento de São Paulo. Mas na fazenda, além de muitos coelhos, tinha cavalos, bois, porcos, cachorros, gatos, perus, gansos, patos, galinhas, galinhas-d’angola, abelhas fazedoras de mel e duas araras, uma azul e outra vermelha.

Com 17 anos, decidi morar em São Paulo outra vez. Aí vim sozinho, com a cara e a coragem. Eu queria a cidade grande. Queria escrever, escrever, escrever. Eu já me atrevia a ler João Guimarães Rosa e Mário de Andrade e Clarice Lispector e queria escrever como eles.

Mas o único jeito que eu achei de ganhar dinheiro escrevendo foi como jornalista. Em 1971 prestei vestibular e fui fazer jornalismo na Fundação Armando Álvares Penteado. Achei o curso muito chato. Tranquei a matrícula poucos meses depois pra viajar de carona pelo Brasil. Era simplesmente maravilhoso chegar na boleia de um caminhão em lugares como o sertão do Cariri, no Ceará, ou visitar, como visitei, o Luís da Câmara Cascudo em sua casa, em Natal, no Rio Grande do Norte. Ou pegar o vapor no porto de Pirapora, em Minas Gerais, e subir o Rio São Francisco até Petrolina, em Pernambuco. Fiz muitos amigos pelo Brasil e aí era um tal de escrever cartas. Ainda não havia e-mail.

Depois de uns anos de andança, retornei à faculdade e me formei em Jornalismo. Meu primeiro estágio foi no Jornal da Tarde. Trabalhei como repórter na Editora Pini e, em seguida, na Editora Abril e na Editora Globo. Passei por revistas como Globo Ciência, Galileu e Gula. Colaborei com outras. Mas foi na Editora Globo, trabalhando na Divisão Infantil e Juvenil, que me aproximei do público jovem. Desenvolvi o projeto editorial da coleção de manuais da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. Editei quadrinhos. E descobri o quanto a imprensa ignorava esses leitores.

Pensei que escrevendo livros eu estaria mais perto deles. Bem lá no fundo, eu sabia que o que eu gostava mesmo era de literatura. Queria escrever livros, sabia desde sempre que eu tinha nascido pra isso. Só não sabia como começar. O grande empurrão veio do escritor Caio Fernando Abreu. Eu o conheci numa oficina literária que ele deu em São Paulo e depois ficamos amigos. Caio me ensinou uma lição muito simples: “Ponha a bunda na cadeira e escreva”.

No ano 2000 fui trabalhar na Recreio. Publiquei contos e poesias na revista. Foi quando o acaso deu uma mãozinha. Um dia tocou meu celular. Era Luciana Villas Boas, a diretora editorial do Grupo Record. Ela havia lido uma das minhas histórias e me ligou perguntando o que eu achava de publicar um livro. E sabe como a Luciana me descobriu? O filho dela, que na época tinha oito anos, é que mostrou uma de minhas histórias na Recreio!

Depois de recuperar o fôlego, eu respondi SIMMM!!!... E desse modo nasceu As Filhas da Gata de Alice Moram Aqui, meu primeiro livro, publicado em 2001. De lá pra cá, não parei mais e vou continuar escrevendo cada vez mais.

Hoje divido meu tempo entre os livros e as aulas na Oficina de Escrita Criativa, onde dou um curso para quem quer se iniciar na literatura infantil e outro para quem quer desenvolver um projeto de livro e apresentar às editoras. E como gosto muito de me dividir pra me multiplicar, eu me divido também entre o apartamento em que moro com meus gatos Fellini e Sofia, na cidade grande, e a Casa da Floresta, no meio da Mata Atlântica, onde me recolho quando preciso de mais oxigênio pra escrever.

Eu me acho um cara de sorte porque vivo entre a Terra e a imaginação, tenho leitores que viajam comigo em minhas histórias e conheço muita gente legal. Às vezes, acho que sou mais do que sortudo. Às vezes, desconfio que sou feliz.